Os avanços na cardiologia não surgem por acaso. Eles são resultado de grandes estudos científicos, chamados de ensaios clínicos, que acompanham milhares de pessoas por vários anos para verificar se um tratamento realmente funciona e se é seguro. A seguir, estão os principais tratamentos atuais, explicados de forma simples, com suas bases científicas e referências.
Controle do colesterol e os inibidores de PCSK9
O colesterol LDL, conhecido como colesterol ruim, está diretamente ligado ao risco de infarto e AVC. Quanto mais alto ele é, maior o risco de entupimento das artérias.
Pesquisadores descobriram que a proteína PCSK9 impede o fígado de remover o colesterol do sangue. Pessoas que, por genética, produzem menos PCSK9 apresentam colesterol mais baixo e menos doenças do coração. A partir dessa descoberta, foram criados os inibidores de PCSK9, medicamentos que bloqueiam essa proteína.
O principal estudo que comprovou esse benefício foi o FOURIER.
FOURIER é a sigla em inglês para Further Cardiovascular Outcomes Research with PCSK9 Inhibition in Subjects with Elevated Risk, que significa um estudo para avaliar resultados cardiovasculares com o bloqueio da PCSK9 em pessoas de alto risco.
Esse estudo acompanhou mais de 27 mil pacientes e mostrou redução importante do colesterol LDL e diminuição de infartos e AVCs.
Referência científica
Sabatine MS et al. Evolocumab and Clinical Outcomes in Patients with Cardiovascular Disease. New England Journal of Medicine, 2017.
Prevenção de coágulos e os anticoagulantes orais diretos (DOACs)
Na fibrilação atrial, o coração bate de forma irregular, favorecendo a formação de coágulos que podem causar AVC. Para evitar isso, são usados anticoagulantes, conhecidos popularmente como medicamentos que “afinam o sangue”.
Os DOACs (Anticoagulantes Orais Diretos) foram desenvolvidos para agir diretamente em pontos específicos da coagulação, tornando o efeito mais previsível e seguro.
Um dos principais estudos foi o RE-LY.
RE-LY significa Randomized Evaluation of Long-Term Anticoagulation Therapy, ou seja, uma avaliação comparativa de tratamentos anticoagulantes a longo prazo.
Esse estudo mostrou que o medicamento dabigatrana reduziu AVCs com menor risco de sangramento grave quando comparado aos anticoagulantes antigos.
Outros estudos importantes incluem ARISTOTLE e ROCKET-AF, que confirmaram benefícios semelhantes com outros DOACs.
Referências científicas
Connolly SJ et al. Dabigatran versus Warfarin in Patients with Atrial Fibrillation. New England Journal of Medicine, 2009.
Granger CB et al. Apixaban versus Warfarin in Patients with Atrial Fibrillation. New England Journal of Medicine, 2011.
Insuficiência cardíaca e os inibidores de SGLT2
A insuficiência cardíaca ocorre quando o coração não consegue funcionar adequadamente. Um tipo comum é a HFpEF, sigla para Heart Failure with Preserved Ejection Fraction, ou insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada. Nesse caso, o coração bombeia, mas não relaxa bem.
Os inibidores de SGLT2 foram criados inicialmente para tratar diabetes. Cientistas observaram que pacientes diabéticos que usavam esses medicamentos tinham menos internações por insuficiência cardíaca. Isso levou à realização de estudos específicos em pacientes cardíacos.
O principal estudo foi o EMPEROR-Preserved.
Esse nome vem de Empagliflozin Outcome Trial in Patients with Chronic Heart Failure with Preserved Ejection Fraction.
O estudo mostrou redução de internações e melhora da qualidade de vida, mesmo em pacientes sem diabetes.
Referência científica
Anker SD et al. Empagliflozin in Heart Failure with a Preserved Ejection Fraction. New England Journal of Medicine, 2021.
Terapias regenerativas e uso de células-tronco
Após um infarto, parte do músculo cardíaco pode morrer e não se regenerar completamente. A terapia com células-tronco surgiu da ideia de estimular o corpo a reparar esse dano.
Estudos clínicos iniciais investigaram se essas células poderiam melhorar a função do coração. Um exemplo é o estudo BOOST, que avaliou o uso de células da medula óssea após infarto.
Os resultados mostraram pequenas melhoras em alguns pacientes, mas ainda sem efeito consistente suficiente para uso rotineiro. Por isso, essas terapias seguem em pesquisa.
Referência científica
Wollert KC et al. Intracoronary Autologous Bone-Marrow Cell Transfer after Myocardial Infarction. The Lancet, 2004.
Terapia gênica e doenças cardíacas hereditárias
Algumas doenças do coração têm origem genética. A terapia gênica busca corrigir ou compensar esses defeitos diretamente no DNA.
Estudos experimentais e clínicos iniciais avaliam essa técnica em colesterol alto hereditário, cardiomiopatias e arritmias genéticas. Um exemplo são pesquisas envolvendo o gene PCSK9 e outros ligados ao metabolismo do colesterol.
Ainda não é um tratamento padrão, mas os resultados iniciais mostram potencial para tratar a causa da doença, não apenas os sintomas.
Referência científica
Musunuru K et al. In vivo CRISPR base editing of PCSK9 durably lowers cholesterol in primates. Nature, 2021.
Por fim, todos esses tratamentos são fruto de grandes estudos científicos, revisados por especialistas e publicados em revistas médicas internacionais. A cardiologia moderna se baseia em evidência científica sólida, buscando tratamentos mais eficazes, seguros e personalizados, sempre com acompanhamento médico adequado.
Dra. Nayara Fraccari – CRM: 151580-SP